GUIA DE SOBREVIVÊNCIA DO ESTUDANTE DE ENGENHARIA QUÍMICA

Procurando alguns arquivos antigos, achei a palestra que eu ministrava em Introdução à Engenharia Química da FURG, em meados de 2003.  Agradeço ao Prof. Felder, a oportunidade de traduzir e adaptar o material para a língua portuguesa. Não tenho tempo de procurar maiores erros.

As coisas não estão indo da maneira como você gostaria nesse ano letivo? O professor apenas enche o quadro de equações e não explica nada? O livro texto é difícil de ler, e não tem exemplos resolvidos? As questões das provas não são em nada parecidas com as “listas” e a média da turma está em torno de 4,0?

Não quero ser antipático, mas já tive turmas que se queixavam amargamente. Isso pode fazer com que alguns alunos se sintam melhor, mas não é pré-requisito para a colação de grau!

Proponho algumas maneiras muito mais produtivas de você auxiliar a você mesmo!

Em primeiro lugar quero deixar bem claro que não é o professor que pode estar tornando a sua vida acadêmica terrível. Por acaso, você concorda na íntegra, ou parcialmente com a seguinte teoria “acadêmica-estudantil”:

“Os professores têm a verdade, a sabedoria, e os atalhos do assunto. A função deles é fornecer a nós alunos as aulas, e o meu trabalho enquanto aluno deve ser assistir as aulas e repeti-las então nas listas de exercícios e nas provas. Se eu puder fazer a “lista”, eu aprendi o que eu necessito saber…Essa é a única maneira que eu posso aprender…”

ESSE MODO DE PENSAR é ABSOLUTAMENTE ERRADO!  Essa abordagem pode ter dado certo no vestibular, no ensino médio, ou mais cedo, mas começa a falhar na faculdade – e uma vez que você começa a trabalhar em uma empresa, seja em uma planta industrial ou em um laboratório de pesquisa, essa abordagem deixa de funcionar completamente. No trabalho não há nenhum professor, aulas, “listas”, ou provas. Há somente problemas – geralmente mal definidos – e algumas soluções que são aceitáveis ou não.

Se você projetar dez reatores químicos e um deles explodir, acredite em mim, não lhe darão nota 9,0!!!!

No entanto, no mundo inteiro a cada dia, centenas de milhares de engenheiros (que também se esforçaram com seus próprios professores desconcertantes e seus textos esdrúxulos e que na maioria dos casos não são mais brilhante do que você), estão lá fora cumprindo suas funções, sabendo o que devem saber e resolvendo seus problemas.

Como esses engenheiros fazem isso? Eles sabem algumas coisas que você ainda não descobriu. Aprenderam logo após a formatura a não contar com outra pessoa que diga tudo o que eles necessitam saber para resolver seus problemas. Então aprenderam como encontrar por si mesmos o que necessitam saber, e descobriram que há muita ajuda disponível se souberem aonde querem chegar.

Sugiro nesse texto algumas iniciativas para melhorar o seu desempenho no curso de engenharia química e na vida profissional. Dê uma chance a essas idéias. Você não têm nada a perder. Se elas funcionarem, você será bem sucedido.

1o) Determine o que torna a disciplina ou o assunto mais simples para você.

As pessoas têm diferentes estilos de aprendizagem (formas de perceber e processar a informação), e tendem a ter problemas em disciplinas nas quais o professor tem um estilo de ensinar que não “se enquadra” com o seu estilo de aprendizado. Os estudantes de engenharia geralmente têm as seguintes queixas sobre as diferenças entre o seu estilo de aprendizagem e o estilo de ensino:

  • “Eu necessito conhecer aplicações do mundo real antes que eu possa entender  alguma coisa, mas tudo que nós temos na sala de aula é teoria que não se relaciona com nada que eu conheça. “
  • “Eu necessito ver a solução de exemplos antes que eu possa entender as teorias matemáticas e as fórmulas, mas tudo o que nós temos em sala de aula são alguns exemplos triviais ou nenhum exemplo de aplicação.”
  • “Eu necessito entender como e porque as coisas funcionam, mas tudo o que nós temos em sala de aula são leis e fórmulas para memorizar. “
  • “Eu necessito ver para entender. Figuras, diagramas, esquemas, fluxogramas, e demonstrações  são muito mais fáceis para mim do que aquilo que eu ouço ou leio, mas tudo o que nós temos em sala de aula são palavras e fórmulas. “

Identificar os seus problemas atuais é a primeira etapa para resolvê-los. Uma vez que você sabe o que falta, você pode acrescentar etapas adicionais de ensino e  preencher as lacunas.

 

2o ) Peça auxílio para o seu professor, em sala de aula ou fora dela.

Contrariando os boatos, a maioria dos verdadeiros professores se preocupa com os estudantes e deseja que eles aprendam. É uma queixa comum entre os professores que os seus estudantes nunca fazem perguntas (a não ser a inevitável: “Isso cai na prova?”).

Se você não entende um assunto, tente perguntar por alguma coisa que possa esclarecer a questão. Reveja a secção anterior por idéias ou conceitos que possam auxiliá-lo agora. Faça perguntas como: “Você pode me dar um exemplo?”, “Você pode esquematizar como (o equipamento, solução, gráfico) se parece?”, “De onde veio essa equação que você escreveu?”, “Quando não podemos usar essa formula?”, “Você poderia nos dizer como essa (teoria, procedimento, equação) é aplicada na prática”?

Sempre que você temer que uma pergunta seja estúpida, faça-a de qualquer maneira! Eu garanto que outros na classe estão igualmente confusos e agradecerão por você ter a coragem de falar.

Muitos professores gostarão desses questionamentos e irão resolvê-los; outros não. Logo, logo ficará claro para você com que tipo de “figura” você está tratando. Se você estiver lidando com um membro do restrito grupo de professores irresponsáveis ou hostis a perguntas, não pergunte para ele!  Vá até fontes alternativas. Sempre com aqueles que são cooperativos. Mas lembre-se que alguns professores se irritam quando se desviam muito do planejamento de suas aulas. Então, questione-os quando estiverem na sala de permanência. Se algum assunto está difícil para você e para muitos colegas, tente ir com um grupo ao professor. Muitos professores irão gostar disso, pois isso irá diminuir o número de vezes que eles terão que re-explicar o mesmo assunto.

Muito cuidado. Todos os professores que genuinamente desejam auxiliar, e acham questionamentos bem vindos, irão ficar muito chateados se acabarem fazendo trabalhos de avaliação para você. Faça disso uma regra: nunca busque auxílio do seu professor para resolver um problema, até que você tenha feito um verdadeiro esforço para resolve-lo você mesmo. Quando você for tirar dúvida, esteja pronto para mostrar em detalhes o que você tentou e como você tentou. Leve seus esquemas, fluxogramas, cálculos, incluindo aqueles que estão errados. Quanto mais informação você der sobre o que você fez, mais você conseguirá em troca.

3o ) Leia inteiramente o livro texto.

Alguns livros que cobrem assuntos teóricos explicam a importância da teoria, descrevendo o comportamento no mundo real dessa teoria e que problemas essa teoria é útil para resolver. Os estudantes freqüentemente ignoram estas partes do livro, e procuram exemplos resolvidos que somente sirvam para reduzir o seu trabalho. Ocorre às vezes que as partes que você saltou contém pontos fundamentais que tornariam tanto a teoria como as aplicações mais claras para você. Procure por essas partes. Também pode ser útil avançar no livro texto, quando alguma coisa o confunde para ver como esse assunto será aplicado mais tarde.

4o ) Procure por outras referências

Caso você necessite de exemplos do mundo real e aplicações práticas para tornar os conceitos abstratos mais claros e o seu professor tem um perfil orientado para a teoria, você provavelmente terá problemas em sala de aula. Se as aulas e o transcorrer da disciplina são principalmente coleções de leis e equações e você necessita de significados e conexões para o assunto fazer sentido para você, você poderá ter iguais dificuldades. Em ambos os casos, encontre outra referência sobre o mesmo assunto, outros livros texto, “handbooks” ou enciclopédias, e procure além dos assuntos que confundem você. Se você deseja exemplos resolvidos em um assunto para o qual a “Coleção Schaum” existe, busque a “Coleção Schaum”  e use-a. Mesmo se você não encontrar na segunda referência exatamente o tipo de abordagem que funciona bem com você,  somente ter lido a respeito do mesmo tópico em dois diferentes lugares já facilitará o entendimento.

5o ) Estude em grupo.

Quando você trabalha sozinho e tem dificuldade sobre algum tópico, você  pode se sentir tentado a pular esse tópico. Trabalhando em grupo, alguém normalmente pode encontrar alternativas para resolver os problemas de uma maneira mais efetiva ou mais eficiente do que você. Além disso, estudantes normalmente ensinam alguém no grupo e como qualquer professor pode confirmar para você, ensinar alguma coisa é provavelmente a melhor forma de aprender essa coisa.

A pesquisa em educação corrobora a efetividade do aprendizado colaborativo. Estudantes que consistentemente solucionam os problemas em grupos, e também trabalhos de avaliação (quando permitido) alcançam maiores notas, retém por mais tempo aquilo que aprenderam, apreciam mais as aulas e ganham mais autoconfiança que os estudantes que trabalham de maneira individual e competitiva. As empresas conhecem o poder do trabalho colaborativo: todos os projetos de engenharia são feitos por equipes.

No entanto, simplesmente estar junto com alguns amigos para enfrentar os problemas não é suficiente para conseguir o pleno benefício da abordagem do trabalho em equipe. Aqui estão algumas idéias para tornar o trabalho colaborativo efetivo em termos de aprendizagem.

Trabalhe em grupos de 3 ou 4 pessoas – quando você trabalha em pares, você não tem suficiente variedade de abordagens e idéias e não há um bom mecanismo de solucionar conflitos. Quando você trabalha em grupos de 5 ou mais pessoas, alguns membros do grupo tendem a ficar a margem do processo ativo de solução dos problemas.

Esquematize a solução dos problemas inicialmente você mesmo – freqüentemente a parte mais difícil de um problema é identificar como começar. Se todos os problemas são atacados conjuntamente pelo grupo todo, um dos estudantes mais rápidos pode iniciar todas as soluções. Caso este aluno rápido não seja você, você pode pensar que saberá como começar problemas semelhantes no futuro na prova, por exemplo, mas provavelmente você não conseguirá. Uma forma eficaz de trabalhar um conjunto de problemas é cada membro do grupo esquematizar a solução, sem fazer cálculos detalhados; após o grupo complementa a solução dos problemas em grupo.

Esteja certo de que todos entenderam cada solução – estudantes em grupo irão freqüentemente aceitar uma solução sem realmente entendê-la. Para o trabalho em grupo ser completamente eficaz, cada membro do grupo deve ser capaz de explicar em detalhes cada solução obtida na sessão de estudo. Cobrar dos membros do grupo (particularmente dos membros com maiores dificuldades) estas explicações é uma boa maneira de ter certeza que a sessão de estudo em grupo alcançou seus objetivos.

6o ) Quando tudo isso falha, consulte especialistas.

Algumas vezes você irá encontrar problemas que nem você nem seus parceiros de grupo pode resolver, mesmo depois de ler o texto e procurar em outras referências. Quando engenheiros experientes caem em tais problemas (e isso ocorre ocasionalmente) eles consultam especialistas. Você também pode ter especialistas disponíveis para você – o truque é encontrá-los e usá-los sabiamente. Seu professor é obviamente um candidato, mas essa opção nem sempre funciona. Outros consultores em potencial são os monitores da disciplina, outros professores (em especial aqueles que lecionam a mesma disciplina que o seu professor),  colegas já formados, colegas mais adiantados no curso, que já cursaram a disciplina, e os melhores alunos da turma.

Caso você seja afortunado o bastante para encontrar pessoas que querem lhe ajudar, não abuse da sua generosidade, dando a eles todos os problemas para resolver. Eles têm seu próprio trabalho a fazer, e se gastarem horas com você a cada semana, rapidamente desapareçam. Recorra a eles ocasionalmente, e somente depois que você tentou tudo o que foi recomendado aqui. Se necessitar a ajuda em um curso com base regular, arranje para si um  professor particular !!! Se você procurar auxílio externo, faça-o cedo bastante para ter tempo de aprender. Esperar até dois dias antes do exame final, certamente não fará bem ao seu desempenho no exame.

Conclusão.

Essas iniciativas irão melhorar o seu desempenho durante o curso na  Universidade e também na sua carreira profissional; além disso irão habilitar você a prosseguir na sua formação continuada pelo resto da vida.

Traduzido e Adaptado pelo Prof. MSc. Renato Dutra Pereira Filho (janeiro/2003)

Fonte:

AN ENGINEERING STUDENT SURVIVAL GUIDE, Richard M. Felder – Professor of Chemical Engineering – North Carolina State University, in http://www2.ncsu.edu/unity/lockers/users/f/felder/public/Papers/survivalguide.htm

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